5º Trail do Castelejo- Crónica de uma “provazita” de Atletismo

1656259_10202062589099127_3515460_nEram 7:40 da manhã do dia 16 de fevereiro de 2014 quando parti de casa, acompanhado pelos meus colegas Tobias e Tanim, para uma “provazita” inserida no Circuito Calcário ali para os lados de Alvados.

O Tanim já era mestre nestas coisas. Eu e o Tobias apanhámos o autocarro errado.


Depois do que choveu toda a semana não podia estar melhor tempo. O sol estava aberto, o céu azul e a temperatura estava agradável.

Chegámos por volta das 8:30 e depois de levantados os dorsais passei à parte do doping (pomadas de banha da cobra, elásticos e um líquido muito estranho que o Tobias me deu). Seguro de que o Voltarene e as ligaduras elásticas em cerca de 90% do corpo me iriam facilitar os movimentos durante os 40 kilometrozitos que se avizinhavam pela frente e junto ao sol (muito junto ao sol).

Depois de ativar o relógio que o meu amigo Simões me emprestou e convicto que me ajudaria nos quilómetros percorridos, nos que faltavam percorrer e no tempo que fazia (já voltamos a esta parte) e depois de colocar a fita do Samuel, partimos por volta das 9:00 para a tal “provazita” de ATLETISMO”.

A receita era simples: seguir as fitas brancas que se encontravam distribuídas pelo PNSAC (Parque Nacional da Serra de Aires e Candeeiros).

15126_638201109579913_458403574_nO trajeto inicial era suave com umas poças aqui e outras ali, que se iam evitando para não molhar os pés, e com uma paisagem entre serras muito interessante com muitos riachos a transbordar de água e muito verde envolvente. Lá seguimos inseridos num grupo de mais de 300 pessoas (provavelmente, não sei ao certo).
Mantendo sempre o meu ritmo fui aumentando a distância para os meus colegas de partida (não sei se estão a perceber a parte do aumento….). A paisagem era cada vez mais bonita e mais molhada, ou seja as poças iniciais deixaram de ser poças e passaram a fazer parte do percurso. Resumindo ribeiros com água até aos joelhos com trilhos de uns 100 metros acompanhados por muros de pedra solta e com inclinações geográficas mesmo em frente para ultrapassar.

Por volta dos 6 quilómetros perdi-me. Eu e outros 10 atletas. Por alguma razão perdemos a indicação das fitas brancas e devemos ter feito mais uns 2 ou 3 quilómetros adicionais até encontrar-mos novamente orientações.
As primeiras subidas fizeram-se bem e na sua maioria a correr, outras porém só se fizeram de gatas. O relógio marcava 12 km e a prova estava a correr, digamos que, “bem” com trajetos ultrapassados com alguma dificuldade pois o chão estava molhado e com pedra solta.

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Dos primeiros quilómetros recordo-me com agrado das túneis de arvoredo por onde passei e dos raios do sol que por eles entravam. Lembro-me também de uma área muito grande completamente alagada em água e que tinha uma vista fantástica vista da serra. Não sei se era a praia de Mira. Bom e não me recordo de muito mais pois ainda tinha muito que correr.
Já tínhamos passado por um abastecimento onde comemos marmelada, laranja e ingerimos alguns líquidos acompanhados por um conjunto que tocava acordeão. Durante a prova podemos apreciar um pouco do interior das Grutas de Santo António e de Alvados.
Bom e cheguei ao quilómetro 25 e ainda faltavam 15. OS PIORES QUINZE.
Depois de um abastecimento lá continuei o desbravar de mato e pedra.

Deveria levar umas 3 horas de caminho.

Já com umas dores e umas cãibras à mistura, que me acompanhavam há já algum tempo, o meu corpo lembrou-se e fez-me esquecer isto. Pois, arranjou-me uma dor pior que todas as outras e achou que eu devia continuar com umas picadas no joelho. A joelheira não funcionou.

Nada de grave ainda tinha o outro joelho.

Conclusão fiz o resto do percurso quase num misto de corrida (pouca) e caminhada.

Regularmente ia consultando o relógio para saber quanto faltava quando me apercebi que o tal relógio tinha “morrido”, ou seja ficou sem bateria. Bom, já não sabia quantos quilómetros faltavam e muito menos quanto tempo levava. Tanto podia estar a correr à 5 horas como à 7 e não passava ninguém por mim e a perceção das coisas já não era a mesma.

As dores no joelho, essas eram cada vez mais fortes.

Normalmente corro um quilómetro de cada vez e depois mais outro e a seguir ainda outro. Acontece que estes quilómetros demoravam muito tempo a passar e a dor no joelho apertava. Passei a correr 100 metros de cada vez mas acho que acabei a correr, ou andar, um metro de cada vez.

Aos 32 quilómetros passei por um ponto de controlo, perguntei se era o último atleta pois já não passava ninguém por mim há muito tempo. Disseram que ainda vinham cerca de 20 atrás de mim. Neste ponto até podia desistir pois a meta era próxima mas também só faltam 8 quilómetros e já tinha feito mais de 30. OS PIORES 8 QUILÓMETROS.

Do lado esquerdo estava a serra e era tão alta que até tapava o sol. Pus-me a caminho.
A subida era simples, só a consegui fazer de gatas e agarrado ao mato. Não sei se a subi em 5 minutos ou em 5 horas.
Por fim cheguei ao topo e julgo que até toquei no sol tão dura foi a escalada. Valeu a pena chegar até aqui, pensei, deve ser a paisagem mais bonita da serra. Continuando.
Passámos por um trilho fantástico no alto da serra que ligava até ao topo da Fórnea e fomos presenciados por um público de quatro patas (vacas) bem no alto da serra.

Entretanto alguns dos 20 atletas passaram por mim.

De seguida veio a descida da Fórnea que foi feita literalmente de rabo. Perigosíssima, com uma inclinação na ordem dos 75º e com pedra solta. No final da descida estava uma estrada em terra plana. As dificuldades estavam a acabar, pensei.
Depois de atingir a planície encontrei um elemento da organização. Perguntei se eu era o último. Respondeu-me que estava  à espera do 310 que era o último participante.

Bom, não era eu mas era estranho pois atrás de mim não via ninguém.
Perguntei quantos quilómetros faltavam, ele respondeu – “Apenas quatro. Agora vira ai à direita e é sempre a subir.”

Mau, pensei. A subir outra vez, estes gajos são loucos.

Confesso que neste ponto utilizei um vocabulário menos próprio. Debitei palavras que nem eu próprio sabia que existiam.

Seja. Trepei outra vez, calhaus enormes pela serra acima. O joelho continuava em mau estado mas a caminhar não se notava. Fiz os últimos quilómetros a andar.

Sete ou oito horas depois da partida cheguei onde parti.

Provavelmente fui o último, pois não sei se o 310 chegou a aparecer, mas acabei. Era o que queria, e também só os primeiros 40 quilómetros é que foram difíceis.

Desta vez a mente foi superior ao corpo.

Parabéns a todos.

Até para o ano se o joelho me deixar.

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